domingo, 13 de janeiro de 2019

Apps e Livros


Vários amigos, de forma mais e menos incisiva, e uma ex-namorada, num nosso último encontro como amigos, mas sutil como o ataque de um pitbull com dor de dente, me disseram que, já que gosto de ler, eu deveria criar o hábito de ler mais e-books. Ora, pra isso já existem os tablets, o kindle, os próprios computadores, estes cada vez menos usuais. E que não tem miopia, astigmatismo nem desculpa.
- A gente sabe que você preza pela tradição, gosta do cheiro de livro novo [e como gosto!], da textura do papel, mas o livro ocupa espaço, destrói árvores. Uma biblioteca toda cabe na tela do seu tablet. Pense sobre isso, Chico. Modernize-se! – eles me dizem.
Eu não sou, de forma alguma, um inimigo da tecnologia, nunca fui. Vejo diversas delas coexistindo (algumas morrendo como os CDs e outras mortas como as câmeras de filme, e estou me atendo ao breve limiar da minha existência), mas tenho cá meu livre arbítrio que, por afetividade, praticidade ou (Pai, eu confesso) preguiça faz pender ora pro mais antigo ora pro mais moderno. Nessa batalha entre tempos, o livro físico, aquele catatau de 800 folhas ou aquele livro de bolso que eu ponho quase na ponta do nariz pra ler melhor ganha minha preferência ao e-book. Tenho meus motivos.
É que por mais que eu seja useiro e vezeiro de redes sociais para postar bobagens, fazer piadas, xingar políticos e conversar nos whatsapps da vida (onde está o cara que não usa tecnologia agora, seus incrédulos?), ler na tela de um celular (e ainda a do meu, que é um livro de bolso em versão pocket) seja no ônibus, na hora do almoço durante o trabalho, no banheiro (sim, às vezes me meto e fazê-lo) é um horror. Sim, caro leitor, em minha defesa, eu afirmo que leio e-books no celular (uma página, duas, cinco no máximo). E quando faço isso em ônibus, pontos de ônibus, filas ou esperas, algo me deprime é ver todos os presentes grudados em um celular, incomunicáveis entre si e expressivos em seus mundos fechados. Poderia usar meu tablete muito melhor e, quando com ele, leio mais (umas dez páginas). Aí, eu observo discreto a todos, seria observado com indiscrição. Nessa, fico com o livro, sempre um na minha mochila. Sou observado como aquele fóssil que algum arqueólogo esqueceu, mas acho um pouco mais nobre.
Tentando coadunar as duas realidades e criar pontes entre dois mundos, fiz questão de procurar algum aplicativo (ou app, escolham, vós, arautos da modernidade) que catalogasse minha honrosa biblioteca de papel onde estão livros que li, leio, lerei e nunca lerei, mas ganhei num momento, dei aquele sorriso amarelo e guardei em algum lugar. Está no tablet ao lado do reader (ah, os anglicismos...) para me lembrar que é ali que está o livro da coleção de Filosofia que custava 120 reais cada volume na livraria convencional, mas 25 todos seus e-books no Mercado Livre (aquela hora que a tecnologia chama seu sonho pra explicar como funciona a vida real). O aplicativo em si é bem pior que eu imaginava embora, a princípio, eficiente. Dá pro gasto. Catalogo ali o livro da estante, leio e, terminado, registro. O mesmo serve pro e-book (que não terminei nenhum dos três que comecei, embora todos muito bons. Falta prática).
Eu tenho meu gosto pelo livro físico e isso morrerá comigo. Sou o fóssil que folheia livros em filas e bancos de praça. O progresso é coisa boa, reconheço e não discuto, como diz a velha moda sertaneja, mas, ainda que os e-books sejam práticos, ecologicamente corretos, fáceis de guardar, aqui no meu quartinho o livro é absoluto. Ainda reina com mandato eterno, mas abre concessões. Ser analógico – e eu o sou – não significa ser tirano contra o novo. Qualquer aversão seja ao novo seja ao velho torna a pessoa totalmente fora de qualquer tempo. E não cheguei a esse nível.

Francisco Libânio,
13/01/19, 7:19 PM

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