domingo, 3 de fevereiro de 2019

Gutembergomania


O grande problema de quem é viciado em ler é quando se acaba um livro e – má programação, distração, descuido ou o que for – nunca há outro pra engatar em momentos tortuosos (salas de espera, por exemplo). Aconteceu comigo.
Estava eu na espera de uma consulta médica a terminar um livro que já estava ao cabo quando deu o óbvio. Eu o terminei. E aí foi uma sequência de imprevistos, um atrás do outro. Primeiro, achava que a consulta seria num dia e era em outro. Segundo, sempre tenho um livro de reserva na pasta de trabalho, dessa vez o esqueci. Terceiro, a consulta atrasou horas. Logo, as vinte últimas páginas do livro que eu lia foram tudo o que eu tinha pra alimentar o vício. Como toda sala de espera que se preze havia revistas, mas perdi o gosto nelas há muito tempo, ainda mais quando deixaram de ser veículos de notícias e viraram panfletagem política barata e guias de compras. E, pra piorar, eram antigas. Usei o celular para um e-book. Paliativo urgente, mas ineficiente. Só que como o cidadão não se cuida, a coisa teve um contorno um pouco mais sério. A médica mandou o leitor compulsivo e abstêmio para cuidar de uma desidratação num pronto-socorro tomar soro. A coisa foi normalizar no alto da noite, e, da desidratação, eu fiquei bem. Da falta de leitura não (a contar que a bateria do celular àquela hora já estava no choro. O e-book não era opção). Voltei pra casa cansado do repuxo do trampo, da correria da noite e o sono, naquele momento, foi mais forte que o vício. Dormi. Melhor de uma coisa e pior de outra.
Toda essa história pessoal serviu para me lembrar uma crônica do genial Veríssimo chamada Fobias em que ele fala da dependência na palavra impressa e imagina situações divertidíssimas e é dela que extraí o título desta crônica, afinal a noite passada mostrou que sou um sério junkie do escrito. Algo menos radical que o próprio Veríssimo, que lançava mão de revistas e jornais, o que dispenso. Apenas me surpreendi ao ver que o volume de leitura ao qual me impus me fez tornar, mais que admirador, dependente dela.
A verdade é que ficar por pouco mais de seis horas sem ler NADA impresso que não fossem livros, mesmo virtuais, me deu uma sensação de torpor (sim, é exagero, mas quem vive isso sabe que é quase isso) e desânimo. Erro da minha parte nessa história toda? Um ou muitos. Apenas serviu pra ensinar algumas coisas básicas para mim nessa situação.
A primeira é que sempre haverá um segundo livro na minha pasta quando o da vez estiver por cinquenta páginas para acabar. Nunca se sabe o que pode acontecer daqui a meia hora. Ônibus que atrasa, consulta que aparece do nada, um problema no trabalho. E pra isso um livro sempre será uma companhia muito bem vinda já que carregadores nem sempre estão disponíveis. Como já disse certa vez, a tecnologia mais avançada ainda é o papel velho de guerra.
A segunda é que, uma vez que eu me assumi gutembergomaniâco, não quero desintoxicação. Pelo contrário, se a situação se agravar e eu vier a óbito por overdose terei dado sentido a minha vida. Muito obrigado.

Francisco Libânio,
23/01/2019, 3: 33 PM

A arte (que não domino) de envelhecer


Sempre que se está prestes a fazer um aniversário, existe uma situação entre os últimos meses da idade anterior em que bate uma certa recusa. O corpo não aceita o ano novo que chega para compor existência e diminuir resistências. Crises de idade, eles dizem. Tive-a no ano passado quando os 39 bateram e alguns conhecidos chegaram aos 40. Sofrer por antecipação é uma falta contra a Bíblia que recomenda a cada dia as suas próprias preocupações. Mas há outras faltas piores e ninguém fala nada. E nem eu as cometo.
Perguntaram a Mario Quintana qual era a sensação de fazer 60 anos. O poeta gaúcho respondeu que a linha dos sessenta era como a do Equador que, ao se atravessar não se sente uma sacudidela sequer. Está certo ele. Idades são números convencionados para muitas coisas, estipular maioridade, definir entrada no cinema e pra aconselhar atrações e programas televisivos, lastrear quem pode ser presidente ou vereador, etc. Não acredito que nos idos tempos nossos priscos parentes hominídeos se batiam tanto com isso. Também não acho que fizessem festas e muito menos tivessem crises existenciais (“Oh, eu tenho trinta anos e ainda não saí da caverna dos meus pais!”). Simplesmente nasciam, viviam, envelheciam e morriam. Creio que o raciocínio dado à nossa espécie desenvolvesse sentimentos, mas a situação era outra.
Viver e envelhecer, para nós de tempos modernos e líquidos, têm sido um desafio assustador. Psicólogos, estudiosos e cientistas têm alertado para as gerações cangurus (que demoram pra sair da casa dos pais), gerações sanduíches (que vivem com pais e filhos ora cuidando de ambos) e outras nomenclaturas. Tudo evolui, novas formas de famílias e formações se criam e se estabelecem. Não vejo problema nisso. Gregário que é, o homem precisa do seu semelhante. O lance maior é o indivíduo, porque o animal político de Platão é o mesmo estranho ímpar de Drummond. E se enfrentar quando essas crises borbotam nunca é bolinho.
Estou, eu, nesta fase, a menos de dois meses de chegar aos quarenta, sobre o que dizem começar a vida. Ou seja, tive quatro décadas de ensaios, tentativas para agora começar a viver, é isso? Não acredito muito nessa tese, mas se for verdade, desses experimentos todos da pré-vida, acho que a vida poderá ser mais suave e sem tantos dissabores. No fim, eu assumo que, nesses tempos líquidos, por mais ensaios e vivências de pré-vida não aprendi a envelhecer. Maturidade adquiri, como muitos, a duras penas e muito revés. E agora os quarenta vêm chegando. Vejo os mesmos conhecidos que me provocaram a crise ano passado fechando seu primeiro ano de vida (que começou, dizem) casados, estabelecidos, com filhos e responsabilidades. Casamento à parte, estamos iguais. Resta agora saber administrar a tal vida que começa, filha que segue para adolescência (longe ainda, mas já é bom ter os cuidados), trabalho, casa (que quero ter) e relações (quanto menos melhor). Vai ser difícil, obviamente, mas que posso fazer? Só se vive uma vez e depois de quarenta anos. Que se faça o melhor possível.

Francisco Libânio,
17/01/2019, 1:23 PM    

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Mein lado dóixi


Descobri hoje que saiu pela excelente coleção Povos e Civilizações da editora Contexto o livro Os Alemães. Esta coleção, de forma muito lúdica, abrangente mesmo concisa e envolvente, dá ao leitor um panorama sobre os povos retratados. Além disso, os livros são escritos por brasileiros que vivem ou viveram por um bom tempo nesses países (salvo Os Espanhóis, escrito por um espanhol que mora no Brasil há muito tempo) e têm certa autoridade para discorrer. Opinião pessoal minha, dos dezoito livros já lançados (convenhamos, é pouco, que venham mais!), os melhores versam sobre os iranianos, os russos, os indianos e os ingleses. Chegou agora a vez dos alemães, que promete ser bom como os outros e me chama a atenção mais afetivamente.
Quem me conhece sabe que meu Pullig é de origem alemã. Meu bisavô Heinrich, um dia, achou que seria melhor largar a Europa e se embrenhar pelas Minas Gerais e graças a isso, cá estou eu. Há uma partícula goethiana na minha pessoa (algumas marxistas vieram depois). Enfim, tenho um pedaço de einsbein nessa feijoada que sou. Brincadeiras à parte, minha ascendência alemã nunca foi motivo de orgulho nem de caças genealógicas como tantos netos, bisnetos e tataranetos de italianos fazem se acotovelando no Consulado na Paulista. Deixo esse pequeno teutônico quieto em algum canto, pois quando o deixei me convencer a querer falar alemão (eu tinha uns oitos anos), a primeira palavra com mais de dez letras, um β (que no alemão equivale ao nosso “ss”) no meio eu desisti. Parei na primeira palavra da apostila: Güten Tag. Bom dia. Estava de bom tamanho.
De lá pra cá muito se passou, a cultura alemã, ao lado de tantas outras, tomou de assalto seja em literatura (olha o Goethe de novo), em Filosofia (Marx, Nietzsche, Hegel, Kant e aí vai), em qualquer aspecto cultural válido e mesmo na Geografia (olá, Herr Humboldt!) que me deu diploma e os primeiros reais, a Alemanha cruzou meu caminho. Inclusive no famigerado 7 a 1. Acidente de percurso. Ter gosto por culturas e leituras me fez ver a Alemanha muito além de Hitler (que nem era alemão aquele bacilo) e do nazismo criado por ele e aceito. Ora, que país não tem em sua história uma mácula, um mau líder, um Menudo pra se envergonhar?
Há de ser um bom livro esse. Quero muito pôr as mãos nele e devorá-lo. Retornar às origens é exagero. A Alemanha, como “pátria-mãe” pouco me diz. Só espero, de verdade, que nessas leituras e em outras conexas, o pequeno teutônico que um dia me convenceu criança a querer aprender alemão não venha com graças. E se vier, que tenha a sensibilidade de explicar que o idioma é dificílimo, metálico, feio (perdão, mas como latinófono, TODA língua derivada do Lácio é poética. Até romeno, que nunca ouvi) e que não me dê sanhas de querer ler Schopenhauer no original. No fim das contas, quero apenas um livro pra ler. Idioma novo pra falar fica pra depois.

Francisco Libânio PULLIG,
14/01/19, 8:26 PM

domingo, 13 de janeiro de 2019

Apps e Livros


Vários amigos, de forma mais e menos incisiva, e uma ex-namorada, num nosso último encontro como amigos, mas sutil como o ataque de um pitbull com dor de dente, me disseram que, já que gosto de ler, eu deveria criar o hábito de ler mais e-books. Ora, pra isso já existem os tablets, o kindle, os próprios computadores, estes cada vez menos usuais. E que não tem miopia, astigmatismo nem desculpa.
- A gente sabe que você preza pela tradição, gosta do cheiro de livro novo [e como gosto!], da textura do papel, mas o livro ocupa espaço, destrói árvores. Uma biblioteca toda cabe na tela do seu tablet. Pense sobre isso, Chico. Modernize-se! – eles me dizem.
Eu não sou, de forma alguma, um inimigo da tecnologia, nunca fui. Vejo diversas delas coexistindo (algumas morrendo como os CDs e outras mortas como as câmeras de filme, e estou me atendo ao breve limiar da minha existência), mas tenho cá meu livre arbítrio que, por afetividade, praticidade ou (Pai, eu confesso) preguiça faz pender ora pro mais antigo ora pro mais moderno. Nessa batalha entre tempos, o livro físico, aquele catatau de 800 folhas ou aquele livro de bolso que eu ponho quase na ponta do nariz pra ler melhor ganha minha preferência ao e-book. Tenho meus motivos.
É que por mais que eu seja useiro e vezeiro de redes sociais para postar bobagens, fazer piadas, xingar políticos e conversar nos whatsapps da vida (onde está o cara que não usa tecnologia agora, seus incrédulos?), ler na tela de um celular (e ainda a do meu, que é um livro de bolso em versão pocket) seja no ônibus, na hora do almoço durante o trabalho, no banheiro (sim, às vezes me meto e fazê-lo) é um horror. Sim, caro leitor, em minha defesa, eu afirmo que leio e-books no celular (uma página, duas, cinco no máximo). E quando faço isso em ônibus, pontos de ônibus, filas ou esperas, algo me deprime é ver todos os presentes grudados em um celular, incomunicáveis entre si e expressivos em seus mundos fechados. Poderia usar meu tablete muito melhor e, quando com ele, leio mais (umas dez páginas). Aí, eu observo discreto a todos, seria observado com indiscrição. Nessa, fico com o livro, sempre um na minha mochila. Sou observado como aquele fóssil que algum arqueólogo esqueceu, mas acho um pouco mais nobre.
Tentando coadunar as duas realidades e criar pontes entre dois mundos, fiz questão de procurar algum aplicativo (ou app, escolham, vós, arautos da modernidade) que catalogasse minha honrosa biblioteca de papel onde estão livros que li, leio, lerei e nunca lerei, mas ganhei num momento, dei aquele sorriso amarelo e guardei em algum lugar. Está no tablet ao lado do reader (ah, os anglicismos...) para me lembrar que é ali que está o livro da coleção de Filosofia que custava 120 reais cada volume na livraria convencional, mas 25 todos seus e-books no Mercado Livre (aquela hora que a tecnologia chama seu sonho pra explicar como funciona a vida real). O aplicativo em si é bem pior que eu imaginava embora, a princípio, eficiente. Dá pro gasto. Catalogo ali o livro da estante, leio e, terminado, registro. O mesmo serve pro e-book (que não terminei nenhum dos três que comecei, embora todos muito bons. Falta prática).
Eu tenho meu gosto pelo livro físico e isso morrerá comigo. Sou o fóssil que folheia livros em filas e bancos de praça. O progresso é coisa boa, reconheço e não discuto, como diz a velha moda sertaneja, mas, ainda que os e-books sejam práticos, ecologicamente corretos, fáceis de guardar, aqui no meu quartinho o livro é absoluto. Ainda reina com mandato eterno, mas abre concessões. Ser analógico – e eu o sou – não significa ser tirano contra o novo. Qualquer aversão seja ao novo seja ao velho torna a pessoa totalmente fora de qualquer tempo. E não cheguei a esse nível.

Francisco Libânio,
13/01/19, 7:19 PM