O
grande problema de quem é viciado em ler é quando se acaba um livro e – má
programação, distração, descuido ou o que for – nunca há outro pra engatar em
momentos tortuosos (salas de espera, por exemplo). Aconteceu comigo.
Estava
eu na espera de uma consulta médica a terminar um livro que já estava ao cabo
quando deu o óbvio. Eu o terminei. E aí foi uma sequência de imprevistos, um
atrás do outro. Primeiro, achava que a consulta seria num dia e era em outro.
Segundo, sempre tenho um livro de reserva na pasta de trabalho, dessa vez o
esqueci. Terceiro, a consulta atrasou horas. Logo, as vinte últimas páginas do
livro que eu lia foram tudo o que eu tinha pra alimentar o vício. Como toda
sala de espera que se preze havia revistas, mas perdi o gosto nelas há muito
tempo, ainda mais quando deixaram de ser veículos de notícias e viraram
panfletagem política barata e guias de compras. E, pra piorar, eram antigas.
Usei o celular para um e-book. Paliativo urgente, mas ineficiente. Só que como
o cidadão não se cuida, a coisa teve um contorno um pouco mais sério. A médica
mandou o leitor compulsivo e abstêmio para cuidar de uma desidratação num
pronto-socorro tomar soro. A coisa foi normalizar no alto da noite, e, da
desidratação, eu fiquei bem. Da falta de leitura não (a contar que a bateria do
celular àquela hora já estava no choro. O e-book não era opção). Voltei pra
casa cansado do repuxo do trampo, da correria da noite e o sono, naquele
momento, foi mais forte que o vício. Dormi. Melhor de uma coisa e pior de
outra.
Toda
essa história pessoal serviu para me lembrar uma crônica do genial Veríssimo
chamada Fobias em que ele fala da
dependência na palavra impressa e imagina situações divertidíssimas e é dela
que extraí o título desta crônica, afinal a noite passada mostrou que sou um
sério junkie do escrito. Algo menos
radical que o próprio Veríssimo, que lançava mão de revistas e jornais, o que
dispenso. Apenas me surpreendi ao ver que o volume de leitura ao qual me impus
me fez tornar, mais que admirador, dependente dela.
A
verdade é que ficar por pouco mais de seis horas sem ler NADA impresso que não
fossem livros, mesmo virtuais, me deu uma sensação de torpor (sim, é exagero,
mas quem vive isso sabe que é quase isso) e desânimo. Erro da minha parte nessa
história toda? Um ou muitos. Apenas serviu pra ensinar algumas coisas básicas
para mim nessa situação.
A
primeira é que sempre haverá um segundo livro na minha pasta quando o da vez
estiver por cinquenta páginas para acabar. Nunca se sabe o que pode acontecer
daqui a meia hora. Ônibus que atrasa, consulta que aparece do nada, um problema
no trabalho. E pra isso um livro sempre será uma companhia muito bem vinda já
que carregadores nem sempre estão disponíveis. Como já disse certa vez, a
tecnologia mais avançada ainda é o papel velho de guerra.
A
segunda é que, uma vez que eu me assumi gutembergomaniâco, não quero
desintoxicação. Pelo contrário, se a situação se agravar e eu vier a óbito por
overdose terei dado sentido a minha vida. Muito obrigado.
Francisco Libânio,
23/01/2019, 3: 33 PM