Sempre que se está prestes a fazer um
aniversário, existe uma situação entre os últimos meses da idade anterior em
que bate uma certa recusa. O corpo não aceita o ano novo que chega para compor
existência e diminuir resistências. Crises de idade, eles dizem. Tive-a no ano
passado quando os 39 bateram e alguns conhecidos chegaram aos 40. Sofrer por
antecipação é uma falta contra a Bíblia que recomenda a cada dia as suas
próprias preocupações. Mas há outras faltas piores e ninguém fala nada. E nem
eu as cometo.
Perguntaram a Mario Quintana qual era a
sensação de fazer 60 anos. O poeta gaúcho respondeu que a linha dos sessenta
era como a do Equador que, ao se atravessar não se sente uma sacudidela sequer.
Está certo ele. Idades são números convencionados para muitas coisas, estipular
maioridade, definir entrada no cinema e pra aconselhar atrações e programas
televisivos, lastrear quem pode ser presidente ou vereador, etc. Não acredito
que nos idos tempos nossos priscos parentes hominídeos se batiam tanto com
isso. Também não acho que fizessem festas e muito menos tivessem crises
existenciais (“Oh, eu tenho trinta anos e ainda não saí da caverna dos meus
pais!”). Simplesmente nasciam, viviam, envelheciam e morriam. Creio que o
raciocínio dado à nossa espécie desenvolvesse sentimentos, mas a situação era
outra.
Viver e envelhecer, para nós de tempos
modernos e líquidos, têm sido um desafio assustador. Psicólogos, estudiosos e
cientistas têm alertado para as gerações cangurus (que demoram pra sair da casa
dos pais), gerações sanduíches (que vivem com pais e filhos ora cuidando de
ambos) e outras nomenclaturas. Tudo evolui, novas formas de famílias e
formações se criam e se estabelecem. Não vejo problema nisso. Gregário que é, o
homem precisa do seu semelhante. O lance maior é o indivíduo, porque o animal
político de Platão é o mesmo estranho ímpar de Drummond. E se enfrentar quando
essas crises borbotam nunca é bolinho.
Estou, eu, nesta fase, a menos de dois meses
de chegar aos quarenta, sobre o que dizem começar a vida. Ou seja, tive quatro
décadas de ensaios, tentativas para agora começar a viver, é isso? Não acredito
muito nessa tese, mas se for verdade, desses experimentos todos da pré-vida,
acho que a vida poderá ser mais suave e sem tantos dissabores. No fim, eu
assumo que, nesses tempos líquidos, por mais ensaios e vivências de pré-vida
não aprendi a envelhecer. Maturidade adquiri, como muitos, a duras penas e
muito revés. E agora os quarenta vêm chegando. Vejo os mesmos conhecidos que me
provocaram a crise ano passado fechando seu primeiro ano de vida (que começou,
dizem) casados, estabelecidos, com filhos e responsabilidades. Casamento à
parte, estamos iguais. Resta agora saber administrar a tal vida que começa, filha
que segue para adolescência (longe ainda, mas já é bom ter os cuidados),
trabalho, casa (que quero ter) e relações (quanto menos melhor). Vai ser
difícil, obviamente, mas que posso fazer? Só se vive uma vez e depois de
quarenta anos. Que se faça o melhor possível.
Francisco
Libânio,
17/01/2019,
1:23 PM
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