domingo, 3 de fevereiro de 2019

A arte (que não domino) de envelhecer


Sempre que se está prestes a fazer um aniversário, existe uma situação entre os últimos meses da idade anterior em que bate uma certa recusa. O corpo não aceita o ano novo que chega para compor existência e diminuir resistências. Crises de idade, eles dizem. Tive-a no ano passado quando os 39 bateram e alguns conhecidos chegaram aos 40. Sofrer por antecipação é uma falta contra a Bíblia que recomenda a cada dia as suas próprias preocupações. Mas há outras faltas piores e ninguém fala nada. E nem eu as cometo.
Perguntaram a Mario Quintana qual era a sensação de fazer 60 anos. O poeta gaúcho respondeu que a linha dos sessenta era como a do Equador que, ao se atravessar não se sente uma sacudidela sequer. Está certo ele. Idades são números convencionados para muitas coisas, estipular maioridade, definir entrada no cinema e pra aconselhar atrações e programas televisivos, lastrear quem pode ser presidente ou vereador, etc. Não acredito que nos idos tempos nossos priscos parentes hominídeos se batiam tanto com isso. Também não acho que fizessem festas e muito menos tivessem crises existenciais (“Oh, eu tenho trinta anos e ainda não saí da caverna dos meus pais!”). Simplesmente nasciam, viviam, envelheciam e morriam. Creio que o raciocínio dado à nossa espécie desenvolvesse sentimentos, mas a situação era outra.
Viver e envelhecer, para nós de tempos modernos e líquidos, têm sido um desafio assustador. Psicólogos, estudiosos e cientistas têm alertado para as gerações cangurus (que demoram pra sair da casa dos pais), gerações sanduíches (que vivem com pais e filhos ora cuidando de ambos) e outras nomenclaturas. Tudo evolui, novas formas de famílias e formações se criam e se estabelecem. Não vejo problema nisso. Gregário que é, o homem precisa do seu semelhante. O lance maior é o indivíduo, porque o animal político de Platão é o mesmo estranho ímpar de Drummond. E se enfrentar quando essas crises borbotam nunca é bolinho.
Estou, eu, nesta fase, a menos de dois meses de chegar aos quarenta, sobre o que dizem começar a vida. Ou seja, tive quatro décadas de ensaios, tentativas para agora começar a viver, é isso? Não acredito muito nessa tese, mas se for verdade, desses experimentos todos da pré-vida, acho que a vida poderá ser mais suave e sem tantos dissabores. No fim, eu assumo que, nesses tempos líquidos, por mais ensaios e vivências de pré-vida não aprendi a envelhecer. Maturidade adquiri, como muitos, a duras penas e muito revés. E agora os quarenta vêm chegando. Vejo os mesmos conhecidos que me provocaram a crise ano passado fechando seu primeiro ano de vida (que começou, dizem) casados, estabelecidos, com filhos e responsabilidades. Casamento à parte, estamos iguais. Resta agora saber administrar a tal vida que começa, filha que segue para adolescência (longe ainda, mas já é bom ter os cuidados), trabalho, casa (que quero ter) e relações (quanto menos melhor). Vai ser difícil, obviamente, mas que posso fazer? Só se vive uma vez e depois de quarenta anos. Que se faça o melhor possível.

Francisco Libânio,
17/01/2019, 1:23 PM    

Nenhum comentário:

Postar um comentário