segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Mein lado dóixi


Descobri hoje que saiu pela excelente coleção Povos e Civilizações da editora Contexto o livro Os Alemães. Esta coleção, de forma muito lúdica, abrangente mesmo concisa e envolvente, dá ao leitor um panorama sobre os povos retratados. Além disso, os livros são escritos por brasileiros que vivem ou viveram por um bom tempo nesses países (salvo Os Espanhóis, escrito por um espanhol que mora no Brasil há muito tempo) e têm certa autoridade para discorrer. Opinião pessoal minha, dos dezoito livros já lançados (convenhamos, é pouco, que venham mais!), os melhores versam sobre os iranianos, os russos, os indianos e os ingleses. Chegou agora a vez dos alemães, que promete ser bom como os outros e me chama a atenção mais afetivamente.
Quem me conhece sabe que meu Pullig é de origem alemã. Meu bisavô Heinrich, um dia, achou que seria melhor largar a Europa e se embrenhar pelas Minas Gerais e graças a isso, cá estou eu. Há uma partícula goethiana na minha pessoa (algumas marxistas vieram depois). Enfim, tenho um pedaço de einsbein nessa feijoada que sou. Brincadeiras à parte, minha ascendência alemã nunca foi motivo de orgulho nem de caças genealógicas como tantos netos, bisnetos e tataranetos de italianos fazem se acotovelando no Consulado na Paulista. Deixo esse pequeno teutônico quieto em algum canto, pois quando o deixei me convencer a querer falar alemão (eu tinha uns oitos anos), a primeira palavra com mais de dez letras, um β (que no alemão equivale ao nosso “ss”) no meio eu desisti. Parei na primeira palavra da apostila: Güten Tag. Bom dia. Estava de bom tamanho.
De lá pra cá muito se passou, a cultura alemã, ao lado de tantas outras, tomou de assalto seja em literatura (olha o Goethe de novo), em Filosofia (Marx, Nietzsche, Hegel, Kant e aí vai), em qualquer aspecto cultural válido e mesmo na Geografia (olá, Herr Humboldt!) que me deu diploma e os primeiros reais, a Alemanha cruzou meu caminho. Inclusive no famigerado 7 a 1. Acidente de percurso. Ter gosto por culturas e leituras me fez ver a Alemanha muito além de Hitler (que nem era alemão aquele bacilo) e do nazismo criado por ele e aceito. Ora, que país não tem em sua história uma mácula, um mau líder, um Menudo pra se envergonhar?
Há de ser um bom livro esse. Quero muito pôr as mãos nele e devorá-lo. Retornar às origens é exagero. A Alemanha, como “pátria-mãe” pouco me diz. Só espero, de verdade, que nessas leituras e em outras conexas, o pequeno teutônico que um dia me convenceu criança a querer aprender alemão não venha com graças. E se vier, que tenha a sensibilidade de explicar que o idioma é dificílimo, metálico, feio (perdão, mas como latinófono, TODA língua derivada do Lácio é poética. Até romeno, que nunca ouvi) e que não me dê sanhas de querer ler Schopenhauer no original. No fim das contas, quero apenas um livro pra ler. Idioma novo pra falar fica pra depois.

Francisco Libânio PULLIG,
14/01/19, 8:26 PM

domingo, 13 de janeiro de 2019

Apps e Livros


Vários amigos, de forma mais e menos incisiva, e uma ex-namorada, num nosso último encontro como amigos, mas sutil como o ataque de um pitbull com dor de dente, me disseram que, já que gosto de ler, eu deveria criar o hábito de ler mais e-books. Ora, pra isso já existem os tablets, o kindle, os próprios computadores, estes cada vez menos usuais. E que não tem miopia, astigmatismo nem desculpa.
- A gente sabe que você preza pela tradição, gosta do cheiro de livro novo [e como gosto!], da textura do papel, mas o livro ocupa espaço, destrói árvores. Uma biblioteca toda cabe na tela do seu tablet. Pense sobre isso, Chico. Modernize-se! – eles me dizem.
Eu não sou, de forma alguma, um inimigo da tecnologia, nunca fui. Vejo diversas delas coexistindo (algumas morrendo como os CDs e outras mortas como as câmeras de filme, e estou me atendo ao breve limiar da minha existência), mas tenho cá meu livre arbítrio que, por afetividade, praticidade ou (Pai, eu confesso) preguiça faz pender ora pro mais antigo ora pro mais moderno. Nessa batalha entre tempos, o livro físico, aquele catatau de 800 folhas ou aquele livro de bolso que eu ponho quase na ponta do nariz pra ler melhor ganha minha preferência ao e-book. Tenho meus motivos.
É que por mais que eu seja useiro e vezeiro de redes sociais para postar bobagens, fazer piadas, xingar políticos e conversar nos whatsapps da vida (onde está o cara que não usa tecnologia agora, seus incrédulos?), ler na tela de um celular (e ainda a do meu, que é um livro de bolso em versão pocket) seja no ônibus, na hora do almoço durante o trabalho, no banheiro (sim, às vezes me meto e fazê-lo) é um horror. Sim, caro leitor, em minha defesa, eu afirmo que leio e-books no celular (uma página, duas, cinco no máximo). E quando faço isso em ônibus, pontos de ônibus, filas ou esperas, algo me deprime é ver todos os presentes grudados em um celular, incomunicáveis entre si e expressivos em seus mundos fechados. Poderia usar meu tablete muito melhor e, quando com ele, leio mais (umas dez páginas). Aí, eu observo discreto a todos, seria observado com indiscrição. Nessa, fico com o livro, sempre um na minha mochila. Sou observado como aquele fóssil que algum arqueólogo esqueceu, mas acho um pouco mais nobre.
Tentando coadunar as duas realidades e criar pontes entre dois mundos, fiz questão de procurar algum aplicativo (ou app, escolham, vós, arautos da modernidade) que catalogasse minha honrosa biblioteca de papel onde estão livros que li, leio, lerei e nunca lerei, mas ganhei num momento, dei aquele sorriso amarelo e guardei em algum lugar. Está no tablet ao lado do reader (ah, os anglicismos...) para me lembrar que é ali que está o livro da coleção de Filosofia que custava 120 reais cada volume na livraria convencional, mas 25 todos seus e-books no Mercado Livre (aquela hora que a tecnologia chama seu sonho pra explicar como funciona a vida real). O aplicativo em si é bem pior que eu imaginava embora, a princípio, eficiente. Dá pro gasto. Catalogo ali o livro da estante, leio e, terminado, registro. O mesmo serve pro e-book (que não terminei nenhum dos três que comecei, embora todos muito bons. Falta prática).
Eu tenho meu gosto pelo livro físico e isso morrerá comigo. Sou o fóssil que folheia livros em filas e bancos de praça. O progresso é coisa boa, reconheço e não discuto, como diz a velha moda sertaneja, mas, ainda que os e-books sejam práticos, ecologicamente corretos, fáceis de guardar, aqui no meu quartinho o livro é absoluto. Ainda reina com mandato eterno, mas abre concessões. Ser analógico – e eu o sou – não significa ser tirano contra o novo. Qualquer aversão seja ao novo seja ao velho torna a pessoa totalmente fora de qualquer tempo. E não cheguei a esse nível.

Francisco Libânio,
13/01/19, 7:19 PM